Um tempo atrás tive um sonho. Nele eu acariciava uma de minhas pernas. Quando a espiei, estava inteira podre. Cheia de pus em cada poro, avermelhada. Comecei a tatear e não sentia nada, nem coceira, nem dor. De repente, bem em cima do joelho, senti uma rigidez – como um espinho gigante. Apertei como uma espinha. Nada acontecia. Aos poucos, entendi como podia removê-la. Comecei a empurrar para o lado, bem devagar. Ainda não sentia nada. Comecei a ver a ponta do artefato. Era pontiagudo, bege. Fui empurrando e empurrando, até ele sair completamente. Para minha surpresa, se tratava de um palito de dente. Um pequeno, inofensivo, palito de dente. No mesmo instante minha perna voltou ao normal. Tão normal quanto sempre fora.
De novo um pesadelo esquisito. Estava de carro com minha mãe, e ao passar na rua de casa, um outro carro cruzou com o nosso. Dentro dele, nós duas também. Como se tudo tivesse ficado em câmera lenta, nos entreolhamos. Pude observar o fundo dos olhos da minha cópia e a imagem da minha mãe como uma estranha.
Acordei. Uma dor latente punge na minha testa. Na minha parede bate uma luz amarelada e a sombra das folhas se projetam. Farfalham, dançam num espetáculo particular. É tão bonito… Quando essa beleza deixou de ser relevante para mim? Quando eu deixei de me impressionar com a beleza natural do mundo? Quando minha vida deixou de ser bonita? Um pigarro me faz tossir, decido me levantar.
Tomo café com leite e fumo “meu último cigarro” na varanda de casa. Me pergunto: no que quero pensar? no que devo pensar? Sem ter controle sobre o que vem em seguida, me imagino caindo do topo do prédio vizinho. Quando isso deixou de ser assustador? Quando minha vida deixou de ser importante? Intimidada e reconfortada ao mesmo tempo, penso: Apenas cresci.
Recebo uma mensagem da minha mãe, ela me diz que uma atriz da novela das 9h se parece comigo e que está com saudade. Minha boca amarra, e como se eu tivesse lido a coisa mais triste possível, meus olhos se enchem de lágrimas. Assim que me recomponho, respondo com um sticker falando que a amo.
Acordou sentindo o amargor da própria boca. Pela primeira vez no dia sentiu os pés e as mãos. Ao abrir os olhos, viu o quarto iluminado por uma luz do sol discreta, abafada pelas cortinas não muito densas. Pensou no dia que teria pela frente por pouco tempo, tempo suficiente para abaixar-lhe a vontade de levantar. Respirou fundo, tateou por debaixo do travesseiro em busca do celular. Viu os ícones do gmail, ifood, uber, whatsapp e instagram. Desbloqueou. Rodou um feed e outro, deletou spams, deixou mensagens para responder depois. Nenhuma faísca, nada. Aquilo lhe proporcionou o primeiro incômodo no peito do dia. O gosto da boca lembrou o próximo passo.
Ao se levantar, a rotina recomeça. A pressão cai, os membros formigam, tudo se apaga por alguns instantes e a busca por apoio é inevitável. Prossegue. A luz que entra da janela do banheiro é a mais bonita da casa “mas ainda é um banheiro”, pensa. Não consegue parar de pensar um segundo sequer enquanto faz suas necessidades. Não consegue dizer no que pensa também. A classificação parece impossível para ela. Mas eu digo, o que se sente é medo. Medo de esbarrar em uma memória ou outra, idéia ou outra. O alimento para sua angústia é abundante e imprevisível. Passa pelos dias com sede de vida, mas tem medo. E esse é seu maior defeito para consigo mesma, a contradição na natureza dos seus desejos. Vive amuada pelas próprias idéias, reprime-se incansavelmente. Mas é preciso viver.
Sempre gostou do café da manhã, de refeições lentas com conversas furadas. Desceu as escadas, já era 11h. Seu café será solitário, acompanhado somente de seus pensamentos. E então vinha o turbilhão. Lembrou-se de todos cafés-da-manhã acompanhada dele que pôde. Alguns mais felizes que outros. Os do princípio geralmente mais doces, os do fim, amargos. Esse café da manhã não tinha gosto de nada. Sequer chegaria a tornar-se uma memória. Esqueceria dele o mais rápido possível. A dor no peito se instala novamente. Olhando pela janela à sua frente, um dia lindo, tipicamente lindo, e não tem vontade nenhuma de vivê-lo.
Estou dormindo. Uma pontada aguda na barriga me desperta. Eu sento na cama desnorteada. A dor se intensifica me fazendo soltar um gemido. Me levanto o mais rápido que posso me apoiando nos móveis do quarto. Seguro meu braço contra minha barriga. Tento chamar “Mãe”, mas ainda estou rouca. Então abro a porta e desço as escadas, onde sei que a encontraria. Ela está na cozinha picando algo, conto que estou preocupada, que estou com dor. Ela me olha de volta confusa e preocupada. A digo que acho que estou grávida. Subitamente sua feição parece aliviada. Ela apoia sua mão em minhas costas e diz que não é preciso me preocupar. Ela começa a me empurrar em direção ao banheiro ao lado, repetindo que tudo ficaria bem. Eu tento retrucá-la mas ela fala por cima que tenho que ouvi-la. Ela me empurra pra dentro do banheiro e me tranca por fora. A dor me tira atenção do que acabara de acontecer. Eu sento no chão. Não se trata mais de um banheiro, é uma sala branca e vazia agora. Eu olho para baixo, e como se tivessem se passado meses em segundos, minha barriga está grande. Eu começo a sangrar. Meu pijama aos poucos absorve a cor vermelha e eu começo a chorar. Sozinha e sem mais implorar por ajuda.
Estou andando no térreo do que me parece uma versão mais sanitária do prédio da ETEC Parque da Juventude. Não há móveis, apenas a estrutura arquitetônica do lugar. Olho para os lados. Estou de preto, um vestido preto. Bem arrumada. Estranho a forma em que estou vestida. Não sei porque estou ali. Então começo a andar pelos corredores, do primeiro e segundo andar. Ao chegar no terceiro, ouço murmúrios vindos de uma sala. Vou até lá. Encontro cerca de 7 pessoas lá dentro, todas vestidas de preto também. Vejo o Vitor e então vou em sua direção. Ele me abraça, me olha condolente . Se oferece a me buscar uma taça de vinho. Sem prestar muita atenção, eu aceito e agradeço. Antes que ele se afaste para pegá-la, eu pergunto porque estávamos ali. Ele me pede calma e sai para pegar o vinho. Eu olho ao redor, tem algumas mesas e cadeiras escolares espalhadas. Reparo em um objeto em cima de uma delas, centralizado na frente da sala. Vou até lá e vejo um caixão. Um caixão pequeno. Pequeno demais até para crianças. Absorta em meus pensamentos e depois de não muito observá-lo eu compreendo. Aquele era o funeral do meu filho.
Vejo uma garota. Acho que sou eu, mas não é idêntica a mim. Acho que sou eu pelo jeito que olha. Nossos olhos são iguais. Estou a observando de muito perto, seu rosto cobre por inteiro a “tela” da minha mente. Posso ver que ela é jovem, cerca de 20 anos, e tem cabelos castanhos, assim com eu. Ela fita algo. Seus olhos estão lacrimejando e sua boca reprime um sorriso. Ao fundo, ouve-se o mar, pequenas ondas quebram na costa. Uma ventania faz os fios de cabelo da garota farfalharem, invadindo seu rosto quase por completo. Com uma mão ela abraça seus joelhos e com a outra, apoia seu rosto. Por ausência do objeto observado, não sei do que aquela feição se trata de fato, mas sinto que se trata de algo bom. Em nenhum momento seus olhos desviam do objeto, não há por que desviar. Digo isso porque, mesmo sem me explicar, eu entendi. Não há por que desviar.
Vejo o mar. É quase noite, tudo no horizonte toma-se por um tom azul claro. A areia é fina, como talco de bebê. Na linha, vê se ainda uma mancha alaranjada de céu, rastro do dia que passou. O zumbido da ventania é grave.
Vejo pela primeira vez aquilo que a garota observa. É uma pessoa. Seus cabelos vão até o queixo e também farfalham com o vento mas, ao invés de invadirem seu rosto, eles voam para trás, deixando toda sua feição visível. Não sorri, nem lacrimejam seus olhos. A pessoa a fita de volta. Sem desviar o olhar. Minha mente me dá a oportunidade de enxergá-la de perto também. Como uma alma que não tem sua presença notada por aqueles que não são sensíveis, eu perambulo ao redor dela. Sua feição é inabalável. Ao observar no fundo de seus olhos, vejo a garota refletida, ainda observando.
De repente, me distancio. Vejo os dois de longe, sentados numa rocha, de costas para mim e de frente pro mar. Eles ainda não se movem, mas ainda se observam. E continuam assim, até o fim do sonho.