CLUBE DE OGROS
Dormi e acordei em um camarim. Grandes espelhos. Uma bancada cheia de acessórios e maquiagem. Sentada, eu me olho séria, enquanto passo sombra preta em minhas pálpebras e linha d’água; ouço um som abafado ao fundo, música. Batida grave. Eu me levanto da cadeira. Me olho no espelho, nada, não sinto nada. Algo me diz que devo sentir medo. Me viro e tiro o resto da minha roupa. Eu sabia o que teria que fazer naquela noite. Vou até uma arara, posicionada no canto do camarim. Puxo um pano preto e transparente de metros de comprimento. Me enrolo de qualquer jeito nele. Atravesso o camarim, outras garotas estão lá, ninguém nota a presença de ninguém. Somos fantasmas.
Ao sair pela porta, a música toma minha cabeça. Sinto a frequência estremecer meu coração. Ao estremecer, sinto medo. Atravesso um corredor e ao fim, tem-se dois lados, para o direito, vemos um enorme galpão, pé alto gigante, paredes pretas. Apesar de enorme, o espaço estava inteiro preenchido por seres humanoides, muito parecidos com nós, mas todos carecas, alguns com rabo, ou chifres. Estavam possuídos pela música, dançavam como se não tivessem controle sobre si mesmos, se agarravam, contorciam, beijavam, mordiam. Sentiam prazer na dor, e dor no prazer.
Seguro o pano contra meu peito. Viro a esquerda. É uma escada. Subo, subo e subo. Chego à uma espécie de área vip, um pódio. Nele, vejo meus patrões. Ogros. Literal ogros. Parecidos com orcs, tem a pele grossa, encoroçada. Eles estão de pé observando seu público enquanto fumam charutos. Eles me ouvem chegar e se viram. Eu já os conheço, não me assustam . Eles me apontam o dever. Estamos perto do teto, nele vê se uma estrutura metálica, como um gancho. Eu sigo até lá. Ao passar, um deles toca meu braço. Sinto arrepiar. É uma lixa molhada. Começo a desenrolar meu pano até que ele caia no chão, prendo as pontas na estrutura metálica. Dou um nó que não se desfaz. Nos ensinaram a fazer isso. Me seguro na ponta oposta e me jogo no ar, em direção àqueles que dançam.
Escuro completo. Uma nova música se inicia. Mais potente, mais sexual. Ouve-se gritos, alguns alegres, outros de desespero, outros de dor. A luz se acende, um efeito pirotécnico nos faz enxergar flashs de luz e de escuro, a realidade é picotada. Mas tudo bem, meus olhos estão fechados. Eu danço no ar, me entrelaçando e desfazendo laços com o pano. Tem certo aspecto circense, mas é inevitavelmente sensual, estou nua, meus cabelos escorrem e se misturam com os panos. Me sinto suja. No chão, os que dançam levantam a mão para me alcançar, desesperados. Se atracam e sobem em cima um do outro para chegar mais alto. Eu continuo me balançando graciosamente, eles não vão me alcançar, nunca. Nesse momento, os ogros gritam para mim, não estão falando em português, mas eu sei o que querem. Querem que eu grite. O mais alto que eu puder. E eu obedeço. Enquanto grito, eles gritam junto, os ogros e os que dançam. Minha garganta queima. Sinto que poderia sangrar. Mas eu não paro, nem eles.

